Baseado nos textos "Arquitetura e
Limites I, II, III" de Bernard Tschumi
Bernard Tschumi em seus textos “Arquitetura e Limites I, II,
III” publicados pela revista nova-iorquina de arte ArtForum em
1980 e 1981, nos traz questões acerca das fronteiras do campo arquitetônico,
dos seus limites. Arquitetura de Limites é aquela que possui elementos, ou ela
por inteiro (construída ou não) é, destoante da atividade regular do arquiteto.
Aquela que possui códigos ocultos que sugerem outras interpretações, revelando
suas preocupações, suas polêmicas. Dessa maneira a arquitetura vem para
questionar padrões sociais, culturais, políticos e programáticos, criticar as
condições existentes. Por vezes ícones dessa arquitetura, dita de limite, foram
ocultados, alguns por não se enquadrarem a nenhum momento da pseudocontinuidade da
história da arquitetura, outros porque foram considerados apenas seus aspectos
mais óbvios, reduzindo-os a meras exigências do mercado, e muitos destes por
falta de uma crítica temática séria, consistente, diferente dessa linha
tradicional à que ela se integra hoje, que se volta apenas para os perfis
pessoais e de praticidade das obras. Segundo Tschumi “Anular os limites [...] é
anular toda a arquitetura”. Os programas de tais obras têm relação com as
necessidades do período, refletindo valores e culturas particulares. Essas
obras são essenciais tanto ao momento histórico ao qual elas se constituíram
quanto à história da Arquitetura. Anulá-las, neste caso, seria desprezar o
caráter questionador e de transformação social que a Arquitetura possui e o
forte argumento para a mudança que ela representa.
“A forma segue a função”. O principio da corrente
funcionalista do século passado ainda é um dos grandes desafios na produção
arquitetônica atual. “A definição de forma é simplesmente forma ou
configuração” (Form and Function Today - Mary McLeod ). Desta forma, no âmbito
da arquitetura, entende-se forma como a morfologia do edifício, sua
organização, a relação entre cheiros e vazios, ritmo, materiais, texturas,
enfim, tudo o que configura o espaço.
Ocorre que muitas vezes a forma precede e prevalece à
função, deixando o potencial da arquitetura - sua função estética, social e
política - em segundo plano.
A banalização da forma resultado da cultura capitalista vem
desvinculando estes dois termos, que parecem estar cada vez mais distantes. Se
a forma não atende ao propósito de uso, de que vale tal forma? Destarte, o objeto perde toda sua riqueza
estética, quando na sua conotação de experiência visual e corpórea.
Forma + Influência
Nas artes autônomas como música, escultura e pintura, forma
e função (com proposta social, política ou cultural) nunca estiveram separadas,
diferentemente da arquitetura, que teve sua produção comprometida devido a este
afastamento.
De acordo com Odile Decq “(...) arquitetura é sempre
contextual e contingente, e a forma nunca vem primeiro. Não estou interessado
em fazer formas, apesar de um projeto sempre ter forma. Ao mesmo tempo, forma
na arquitetura não é apenas a influência externa. É uma relação mais complexa.”
A complexidade a que a autora se refere está diretamente relacionada com o
sublime, ou seja, o que se espera no ato projetual, do intimo e consciente do
arquiteto, bem como as experiências vivenciadas.
Com os avanços tecnológicos a concepção da forma por vezes é
banalizada. As diversas ferramentas e softwares abrem uma gama de
possibilidades criativas, que por vezes nos condicionam de acordo com suas
limitações. É claro que as novas tecnologias possibilitaram a construção de
edificações mais complexas, bem como o Guggenheim de Bilbao, do arquiteto Frank
Gehry, cuja forma só foi possível graças à estes programas de representação e
experimentação. Por vezes, quando o arquiteto tem o computador como sua
ferramenta principal e primeira de projeto ocorre um distanciamento do usuário
uma vez que o computador elimina o contexto em que o projeto está inserido.
Museu Guggenheim em Bilbao (Fonte: edificandoonline.blogspot.com)
Museu Guggenheim em Bilbao - Interior (Fonte: coolwallpapersblog.blogspot.com)
No
caso do museu de Guggenheim de Bibao ,que possui curvas esculturais, com
aparência de inacabado mas extremamente harmônico , apresenta as formas
desadaptadas do contexto que ele exerce. A inovação do edifício se limita a parte externa, uma
vez que seu interior apresenta as funções básicas de um museu convencional. O
contrario acontece no museu Guggenheim de Nova Iorque, de Frank Lloyd Wright, que remete, em sua forma espiral, à própria
historia da arte.
Museu Guggenheim em Nova York (Fonte: assimeugosto.com)
Museu Guggeinheim em Nova York - Interior (Fonte: villalobosbrothers.com)
No entanto, mesmo o mais mundano e utilitário
edifício tem forma, uma vez que matéria sem forma não existe. A partir da
movimentação de formas primárias, simples, da geometria espacial, é possível se
chegar a conformações complexas e inovadoras. Exemplo disso é o Peter Eisenman,
arquiteto que mesmo antes da inovação do computador, experimentou e manipulou
essas formas, com conceitos bem fundamentados. Um exemplo é o projeto da casa
Guardiola, onde essa manipulação do cubo é materializada.
Estudo da concepção da forma da Casa Guardiola - Peter Eisenmen (Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=JAH97LcQ2Cs)
Função é determinada, mas não fixa, prescrita. Ela é “expansiva
e transformadora” (Mary McLeod – Form and Function Today), passível de
interpretações e intervenções. E é nessa relação simbiótica entre forma e
função que reside o potencial estético, social e crítico da arquitetura.
Zaha Hadid e a Forma
A arquiteta iraquiana radicada
em Londres é conhecida pelos seus projetos ousados, onde explora a
fragmentação, as formas curvilíneas alongadas, fluidas e complexas. Não é por
acaso que seus projetos são conhecidos internacionalmente pela originalidade e
conceito.
O mais notável nos trabalhos
da arquiteta é o fato de que forma nunca vem sozinha, apenas sua função
plástica. Um exemplo é o Guangzhou Opera House, localizada na cidade de
Guangzhou, na China. Externamente as fachadas são formadas por panos
triangulares de vidro e granito cinza-escuro apicoado, o que já deixa o
edifício, a priori, bem interessante. Mas a grande surpresa está nas duas
construções que abrigam um auditório cada um e um teatro com 1800 lugares. Aí,
as formas orgânicas tão usadas pela arquiteta, milimetricamente estudadas, têm
a função de afinar os parâmetros acústicos como reverberação, clareza e volume.
Além disso, as paredes douradas com a constelação de leds fazem com que o
ambiente desperte sensações únicas.
Guangzhou Opera House (Fonte: http://www.zaha-hadid.com/archive/)
Guangzhou Opera House - Interior (Fonte: http://www.zaha-hadid.com/archive/)
Guangzhou Opera House - Interior (Fonte: http://www.zaha-hadid.com/archive/)
Mas experiências de formas não se
detêm somente aos edifícios. A Zaha Hadid é uma conceituada design e aplica
suas experiências em móveis e objetos. Um exemplo é sua cadeira Z. Mais sensato
seria chamá-la de escultura. O aço inoxidável moldado em curvas sinuosas (já
falamos aqui que é uma das marcas da arquiteta) cria um ritmo, de cheios e
vazios, dando leveza e transparência à cadeira, o que parece fazê-la flutuar.
No design clássico toda cadeira é uma cadeira, mas esta não! O que está em jogo
é o discurso da forma, a experimentação, e salvo a ergonomia (a maior função de
uma cadeira), ela se revela bela, elegante e única.
Cadeira Z (Fonte: http://saberdesign.com.br)
Cadeira Z (Fonte: http://saberdesign.com.br)
O “forte” da artista também está
presente no design dos calçados que criou para as marcas Lacoste e Melissa. No
primeiro, a peculiaridade do modelo está no formato ergonômico feito de malha
metálica, que expressa a “marca do crocodilo”. Com o movimento essa malha se
expande e se contrai adaptando-se ao corpo e formando um efeito de paisagem que
vai se modificando. Na marca brasileira Melissa a idéia de movimento inspirou a
fluidez do design. Sem fechamentos ou costuras a sandália se adequa
perfeitamente ao corpo, numa relação simbiótica.
Sapato Lacoste por Zaha Hadid (Fonte: http://dailymodalisboa.blogspot.com/)
Sapato Lacoste por Zaha Hadid (Fonte: http://dailymodalisboa.blogspot.com/)
Forma e função não devem estar desatreladas, seja qual for o
meio de concepção da forma (intuitiva, manipulação, experimentação).
Arquitetura é contextual e contingente, a forma nunca deve vir primeiro, como
observamos nos trabalhos dos arquitetos citados no decorrer do trabalho. Em
seus projetos forma e função se completam, na falta desses elementos, o outra
tem seu valor diminuído, esvaziando-se de sentido.
Bibliografia
Livro “The state of architecture at the beginning of the 21st
century”, capítulo “Form + Influence”.
A arquitetura é, ou, pelo menos
deveria ser, reflexo do momento histórico, das relações políticas, econômicas e
sociais vigentes, em um sistema de causa e efeito. Trata-se de uma ferramenta
potencialmente influente de crítica às condições de realidade e um instrumento
“chave” de transformação social, por meio de sua forma a arquitetura questiona,
confronta, incita, impõe. Porém os profissionais de arquitetura e urbanismo
atuais têm mantido seu foco em um mercado muito reduzido, dito de luxo,
considerado como a produção arquitetônica de
sucesso, o que restringe muito seu campo de atuação a uma pequena parcela
da sociedade, em detrimento à outra menos ostentosa, menos admirável, criando
um distanciamento da realidade brasileira e subestimando as muitas
possibilidades intrínsecas à profissão. Essa é uma lógica segregadora que
coloca a arquitetura em uma posição de elitização, que não é própria dela. A
arquitetura deve possuir um caráter social, voltar-se para a cidade como um
todo, buscando um modelo de atuação política a partir das demandas da sociedade,
integrando as diversas áreas, propondo melhorias, arquitetônicas e
urbanísticas, e questionando padrões que mereçam ser discutidos. Fazer
arquitetura não é apenas ordenar e organizar um espaço para determinada
finalidade, vai muito além.
Como alternativa à áreas tornadas obsoletas, subutilizadas ou mesmo abandonadas e em estado de depredação, propõe-se o processo de revitalização, que consiste na reestruturação desses espaços, articulando inovações, melhoramentos e inserindo em tais áreas elementos atrativos que despertem, de certa forma, a atenção e o cuidado da população local. Na cidade de Liverpool, na Inglaterra, uma área industrial degradada, situada em um ponto estratégico no centro da cidade, passou por um processo diferenciado de revitalização, reinventando a idéia tradicional de espaço público. Árvores giratórias são os elementos atrativos, em velocidades diferentes de rotação elas evolvem o espectador, invertendo os papéis, a natureza não é mais o elemento estático à espera da ação humana. Bancos para descanso e playgrounds já não são suficientes para despertar a atração do homem atual, imerso a uma realidade tecnológica e informatizada. A tecnologia entra nesse cenário proporcionando uma nova interpretação da paisagem, que se reconfigura a todo momento, em um movimento totalmente avesso àquele a qual estamos acostumados, e que por assim ser nos atrai.
A tecnologia está cada vez mais presente em nosso dia a dia, nas mais diversas atividades que executamos, de maneira tal que seu uso, muitas vezes, torna-se corriqueiro. É quase impossível nos depararmos hoje com uma pessoa totalmente alheia a essa revolução tecnológica que vem modificando nosso comportamento e nossas relações com os outros indivíduos e com o espaço, e nesse momento nos esbarramos à seguinte questão: Será que, nessa realidade tecnológica vivida por nós hoje, o que nos é tradicional, relativo à nossa cultura, à nossa identidade, está fadado ao desaparecimento? A imagem nos mostra a nossa tradicional xícara de café de toda manhã junto ao que há de mais “High Tech” disponível no mercado de consumo, o IPad, que exibe uma revista, objeto também tradicional a nossa cultura, trazendo como imagem de capaSteve Jobs, grande empresário no setor da informática e tecnologia. E tais elementos parecem “conviver” bem. Por isso acredito que não, as tradições não estão fadadas ao desaparecimento, pelo contrário, creio que estas devem servir-se da tecnologia para sua valorização, portanto considero e ressalto a importância da associação destas duas vertentes na concepção da identidade contemporânea.